Pesquisa mostra a cultura de comunidade rural, em Pacajá, no Pará.
Para eles, plantas medicinais têm tanta eficácia quanto os remédios comuns.
Lissa de Alexandria, Agência Museu Goeldi
Agência Museu Goeldi - Que o uso de plantas medicinais é parte da cultura regional amazônica, ninguém duvida, mas recente estudo desenvolvido no Museu Paraense Emílio Goeldi, revela que numa determinada comunidade, 100% da população local utiliza as plantas medicinais. Delas, 32% utilizam as plantas e remédios vendidos em farmácia, e 68% utilizam somente as plantas, para tratamento e cura de várias doenças.
A pesquisa foi realizada na área da Transamazônica, em uma comunidade do município de Pacajá. “Plantas medicinais nos quintais de agricultores familiares do Travessão 338 Sul, Pacajá, Pará, Brasil: uso, conhecimento e valorização” foi também tema da dissertação da bolsista Stérphane Araújo de Matos.
O uso medicinal das plantas - A população utiliza as plantas, por exemplo, no tratamento de doenças que afetam o aparelho respiratório, como a gripe e o resfriado. Dos quintais, as plantas saem para auxiliar no tratamento dos doentes e revelam o conhecimento tradicional aplicado ao cotidiano da comunidade.
Uma história de ocupação - Segundo Stérphane, muitas plantas chegaram à região com a imigração de famílias de outros estados brasileiros, sobretudo a partir da década de 70, com os projetos de colonização na Transamazônica. A instalação de contingente populacional de outros lugares desencadeou na Amazônia a cultura de consumo de plantas medicinais nativas e oriundas de vários cantos do mundo.
Mas, de acordo com a legislação vigente (Medida Provisória n°2.186-16/2001), a localidade não se enquadra na definição de “comunidade local”. Dessa maneira, não é reconhecida pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN) como portadora de conhecimento tradicional associado à biodiversidade. Mesmo assim, o trabalho aponta a importância dos conhecimentos botânicos associados ao uso e cultivo das plantas pelos agricultores familiares, uma realidade que devera constar na hora de avaliar os serviços ecossistêmicos oferecidos pelas populações locais da região.
“O conhecimento sobre as plantas medicinais é fundamental. Os agricultores as utilizam na alimentação, consumindo-as como frutíferas ou incrementando a culinária local e de forma ornamental. Eles acreditam muito no tratamento e na cura através das plantas medicinais e têm nas plantas medicinais um recurso terapêutico”, explica a Mestre.
Uma das plantas mais encontradas nos quintais foi o “capim-santo” Cymbopogon citratus (DC.) Stapf. “O capim-santo, além de planta medicinal, é utilizado na dieta alimentar. A comunidade utiliza como calmante, em forma de chá, no café da manhã ou em reuniões que acontecem no final da tarde. Dos 25 quintais que visitei, o capim-santo foi registrado em 11, por conta desses dois tipos de utilização”.
A pesquisa também levantou dados socioeconômicos, que apontam a atividade de cuidar dos quintais como uma tarefa eminentemente feminina e a troca de plantas e de conhecimentos como uma prática comum entre vizinhos e moradores de outras localidades.
Uma das características dos quintais é a presença de árvores de grande e médio porte encontradas ao redor das casas. Essa é uma estratégia comum para diminuir a sensação de calor e proporcionar sombra para a residência. Os agricultores familiares do 338 Sul ainda mantêm boa parte da floresta original. O trabalho constata inúmeras funções das plantas na vida das pessoas, desde a ornamentação até o uso na culinária, passando pela aplicação terapêutica.
Início - Graduada em biologia, Stérphane já havia feito pesquisa a respeito de plantas medicinais, em uma comunidade rural de Anapu. Lá as espécies medicinais foram submetidas à análise fitoquímica e ao teste de toxicidade, buscando novos agentes terapêuticos nas plantas de uso popular e averiguando sua segurança no tratamento das enfermidades. Da pesquisa desenvolvida em Pacajá, Stérphane Araújo conclui que a cultura de utilização das plantas medicinais na região é passada de geração para geração, e que a manutenção desses quintais serve de garantia para o consumo dessas plantas, e traz perspectivas de novas descobertas, novas espécies de plantas que podem ajudar a medicina.
Para a orientadora, Márlia Coelho-Ferreira, “a pesquisa feita por Stérphane, veio contribuir para o conhecimento sobre o assunto, e para valorizar o conhecimento dos agricultores da região do Travessão 338 Sul”.
Cooperação franco-brasileira investiga sustentabilidade
Stérphane Araújo teve contato com a comunidade Travessão 338 Sul, distante 60 quilômetros da sede do município de Pacajá, através do programa de pesquisa AMAZ de cooperação franco-brasileira entre a UFRA, a UFPA, o MPEG e o IRD “Serviços ecossistêmicos e sustentabilidade das paisagens silvipastoris da Amazônia Oriental”.
A coleta de dados aconteceu durante sete semanas, entre novembro de 2009 e novembro de 2010, na localidade denominada Travessão 338 Sul, onde a mestre fez a verificação tanto de plantas nativas à região como das que foram introduzidas. Foi feito o reconhecimento da área de estudo pela mestranda, acompanhada por membros da equipe do referido programa, ocasião em que obteve o consentimento dos agricultores para o desenvolvimento de suas atividades de pesquisa e logo depois, a bolsista iniciou os trabalhos, com foco nas plantas medicinais e nos quintais. A investigadora elegeu a porção central do Travessão como área de estudo, considerando a divisão feita pelos próprios moradores e a acessibilidade, além desta concentrar 9 famílias vinculadas ao programa AMAZ, e 16 famílias atendidas pela Agente Comunitária de Saúde (ACS), que também reside na localidade e facilitou o primeiro contato com os agricultores.
Confira essa e outras matérias do jornal do Museu Goeldi, o Destaque Amazônia nas edições de nossa estante virtual no http://www.museu-goeldi.br/sobre/NOTICIAS/destaque/seleciona_destaque.html

