O clima esquentando, as calotas polares derretendo, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte sendo erguida, um código florestal altamente questionado e o Dia Internacional da Biodiversidade sendo comemorado. O monte de vida que a natureza carrega e oferece perdeu por anos parte da diversidade. A coexistência inseparável e necessária do homem e do meio tem passado por períodos turbulentos. Ainda assim, nunca antes na história desse país e desse mundo o meio ambiente esteve tão em pauta. Há, sim, motivos para comemorar, mas há muito mais objetivos a perseguir.
A ecóloga Marlúcia Martins, pesquisadora do Museu Emílio Goeldi, aponta a necessidade de a distribuição geográfica do conhecimento ser feita corretamente. "Não adianta a gente saber muito só de um lugar. Nos últimos dez anos avançamos com o conhecimento da Amazônia, foram descobertas 130 novas espécies. Duplicamos o número de pesquisadores, mas ainda precisamos de muitos outros. Também fizemos uma expedição a Terra do Meio, que ainda não havia sido estudada cientificamente", revela. Ainda que passos tenham sido dados, Marlúcia acredita que há muito mais a se conhecer. "Precisamos ainda aumentar a porcentagem de unidades de conservação no Brasil, conseguimos isso na Amazônia, mas é preciso que aconteça no país inteiro", afirma.
Sobre a polêmica construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, dois problemas. "Como a usina vai continuar gerando energia com a capacidade 60 vezes menor durante um período? Nesse ponto, questiono a eficiência energética de Belo Monte. Além disso, o custo social e ambiental da construção é muito alto. Só são expostos os custos e benefícios econômicos, mesmo que hoje haja instrumentos para se medir todos esses custos juntos", argumenta a pesquisadora. Ela, no entanto, sabe que a obra vai continuar apesar dos apontamentos contrários. "Há muitos processos colocados contra, mas eles não são respondidos pelo jurídico. Não nos cabe dizer se a obra vai acontecer ou não, ela tem legalidade, o que nós pesquisadores podemos fazer é continuar mostrando as inviabilidades do projeto", conta.
Mas Belo Monte não é a única luta que os especialistas, pesquisadores e defensores da biodiversidade enfrentam atualmente. O Código Florestal é outro ponto crítico analisado a nível federal e rejeitado por inúmeras campanhas da sociedade civil, de organizações não governamentais e pelas mídias sociais. "O bom exemplo que o Brasil deveria dar na Rio + 20 é o veto do Código Florestal", defende a ecóloga. Segundo ela, acordos são feitos, metas são traçadas, mas o maior calo para preservação da biodiversidade hoje é o consumo. "Enquanto respondermos com consumo, a sociedade não aponta interesse pela sustentabilidade. Além de continuarmos consumido muito, estamos encantados com a ideia de ser potência econômica mundial", diz, lembrando que não há nada de errado em querer crescer, mas ressalta que é preciso fazer isso com responsabilidade. "Agir com responsabilidade nesse momento é vetar esse Código Florestal, que da maneira que está posto é criminoso. Ele não respeita os limites dos rios, não protege nossos mananciais e mexe de maneira errada nas Áreas de Preservação Perma.
(Diário do Pará)
Diário Online, 22/5/2012.

