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Ministério da Ciência e Tecnologia
Museu Paraense Emílio Goeldi

XV Congresso da SAB (2009)

Realizado entre os dias 20 e 23 de setembro de 2009 no Centro de Convenções do Hotel Sagres, em Belém, Pará.


















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A bacia do rio Trombetas pertence, geográficamente, à região do baixo Amazonas , de onde são provenientes as cerâmicas Marajoara, Aruã, Santarém e Maracá. No caso específico do rio Trombetas, a potencialidade arqueológica e a diversidade dos artefatos são notórias desde o século XIX, quando aí foram descobertos os primeiros ídolos de pedra amazônicos e fragmentos de cerâmicas elaboradas (Barbosa Rodrigues,1875). Além disso, mais recentemente, foi identificada, na referida bacia, uma das maiores concentrações de conjuntos rupestres da Amazônia (Pereira, 2003). Assim, a região do rio Trombetas e de Santarém, por serem quase contíguas, formam uma área de ocorrência de importantes vestígios arqueológicos. As fontes históricas relatam especialmente para a foz do rio Tapajós, a existência de assentamentos populosos (Carvajal, 1941; Rojas, 1941), formas hierarquizadas de organização social (Heriarte, 1874) e cultos religiosos (Bettendorf, 1990; Heriarte, 1874). Esses elementos associados aos vestígios arqueológicos induziram à hipótese sobre a existência de complexidade cultural nessa região.

Apesar do alto potencial arqueológico, a região de Trombetas não garantiu a execução de projetos de pesquisa sistemáticos, tanto que foram conduzidos de maneira intermitente na década de 1950 por Peter Hilbert (Hilbert, 1955a; 1955b;) e na década de 1970 por Peter e Klaus Hilbert (Hilbert, 1980; Hilbert;Hilbert, 1980). A partir da década de 1980 as pesquisas foram retomadas sob a perspectiva da arqueologia preventiva, uma vez que foi implantado um pólo de exploração de bauxita na região. (Araújo Costa et al., 1985; Hilbert, 1988; Kalkman; Costa Neto, 1986; Lopes, 1981; BRANDT, 2000; Guapindaia, 2000).

Dentro dessa perspectiva, é que foi definido o escopo do projeto que vem sendo desenvolvido na região de Porto Trombetas. Assim, desde o ano de 2001 o Museu Paraense Emílio Goeldi vem executando pesquisas arqueológicas na região de Porto Trombetas através da firmação de sucessivos convênios com a Mineração Rio do Norte e a Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP) e mediante autorizações periódicas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO). O objetivo geral da atuação do Museu Goeldi é realizar pesquisas arqueológicas nas áreas afetadas direta e indiretamente pelas atividades mineradoras da MRN na região de Porto Trombetas.

A delimitação da área pesquisada foi fundamentada no levantamento dos sítios arqueológicos de pesquisas anteriores - principalmente as de Hilbert (1955a) e de Hilbert e Hilbert (1980) - e pelo plano de extração mineral da MRN nos platôs. A área está localizada entre as coordenadas 1° 24` 36" e 1° 52` 30" S e 56° 15` 30" e 56° 37` 12" W (Figura 1). Compreende duas áreas mais ou menos distintas: uma inclui o ambiente ribeirinho que envolve as margens dos rios e lagos; e a outra compreende as terras baixas interfluviais e os platôs. De uma maneira geral, a área tem como limite ao Norte o rio Trombetas, no trecho entre os lagos Moura e Batata; a Oeste o platô Teófilo; a Leste os platôs Almeidas e Bacaba; e ao Sul os platôs Greig e Aramã. No rio Trombetas, a pesquisa ficou restrita à sua margem direita, que é o limite da FLONA Saracá-Taquera. Apenas uma investigação pontual foi realizada na margem esquerda - no lago Mussurá.

Até o momento, foram investigados próximo às encostas dos platôs oito sítios Aviso I, Aviso II, Aviso III Almeidas, Bela Cruz I, Bela Cruz II, Teófilo Greig I (Guapindaia, 2008). Além desses, há o Cipoal do Araticum, localizado entre os platôs Aviso e Bela Cruz na área onde esta sendo construída uma estrada para transporte de minério entre os referidos platôs (Guapindaia et al , 2010). Na margem do rio Trombetas foi escavado o sítio Boa Vista; no lago Moura foi investigado o Horta; e no lago Batata foi realizado o levantamento topográfico e iniciadas escavações no sítio Terra Preta e revisitados os sítios Hakibono, Inajatuba, e Buriti (Guapindaia & Lopes, 2003;2004;2005).

As pesquisas realizadas até 2008 consideravam que na região de Porto Trombetas existiam três categorias de sítios. Duas delas relacionadas a assentamentos sedentários e uma a assentamentos temporários. Os sítios sedentários foram identificados em dois ambientes: no ribeirinho ou lacustre e no interflúvio. Os assentamentos ribeirinhos caracterizam-se por grandes extensões de terra preta e maior densidade de material; e os de interflúvio, embora também apresentem áreas de terra preta, estas são menos extensas. Os sítios temporários foram identificados apenas nas áreas de interflúvio e caracterizam-se pela ausência de terra preta e baixa densidade de vestígios.

Nas três categorias de sítios foram identificados vestígios lito-cerâmicos nas primeiras camadas associados à ocupação Konduri, o que foi confirmado pelas datações radiocarbônicas. Isso parecia indicar que esses grupos exploraram e dominaram a região de Porto Trombetas do século X ao século XV, fazendo usos diferentes para o ambiente de interflúvio e a zona ribeirinha. Naquele momento, a ocupação mais antiga, Pocó, foi identificada apenas na área ribeirinha, no período entre o século II a.C. a IV d.C.(Hilbert; Hilbert, 1980; Guapindaia, 2008; Rodet; Guapindaia; Matos, 2010).

Na zona de interflúvio, especificamente no compartimento ambiental classificado como terras baixas, já tinham sido registrados no âmbito do Projeto Arqueológico Porto Trombetas nove sítios: Aviso I, Aviso II, Aviso III e Almeidas localizados entre os platôs Saracá, Aviso e Almeidas; Bela Cruz I e Bela Cruz II, entre os platôs Bela Cruz e Aviso; Teófilo I localizado entre os platôs Teófilo e Cipó; o Greig I, que fica entre os platôs Greig e Bela Cruz; e o Aramã, próximo ao platô de mesmo nome. Além desses, Hilbert registrou ainda os sítios Araticum, Castanhal, Aeroporto, Inocente, Madeireiro e Camargo (Hilbert, 1988). Todos esses sítios apresentam pequenas dimensões, alguns sem ocorrência de terra preta, e aqueles, nos quais ela ocorre, são pequenas manchas de solo escuro, onde se identificou somente cerâmica Konduri. Diante disso, propôs-se um quadro hipotético, onde a ocupação dos interflúvios era composta, em grande parte, por acampamentos periódicos e por algumas pequenas aldeias relacionadas à ocupação Konduri.

No ano de 2009 ao realizar a prospecção entre os platôs Aviso e Bela Cruz, local onde seria construída uma estrada para transporte de minério, localizou-se o sítio Cipoal do Araticum, que embora esteja localizado na área de interflúvio, apresenta características, até então, atribuídas aos sítios ribeirinhos, isto é: profundas e extensas áreas de terra preta e alta densidade de material, constituindo assim, uma exceção ao modelo proposto por Guapindaia (2008).

No Cipoal do Araticum foram encontradas feições muito semelhantes às identificadas no sítio Boa Vista, que são buracos preenchidos com solo de terra preta e grandes fragmentos de cerâmica com decoração elaborada. Estas feições, provavelmente estão relacionadas à ocupação mais antiga da região, a Pocó. Portanto, embora tanto o Cipoal do Araticum como o Boa Vista possam ser caracterizados como sítios multicomponenciais, já que apresentam cerâmica Pocó e Konduri, no primeiro sítio a ocorrência de cerâmica Pocó ocorre desde os níveis iniciais contrastando com o que ocorreu no sítio Boa Vista onde a cerâmica Pocó estava restrita aos níveis inferiores da estratigrafia (Guapindaia ET al, 2010; Junqueira, 2010).

As pesquisas iniciais realizadas no sítio Cipoal do Araticum - onde aproximadamente 60% da área do sítio foi mapeada e cerca de 40% investigada e os vestígios coletados ainda não estão sendo analisados - já demonstram que os resultados irão trazer novos rumos para o conhecimento arqueológico da região de Porto Trombetas. A principal razão para isso, é o fato deste sítio apresentar características muito distintas de outros até agora registrados e estudados no mesmo compartimento ambiental. A análise laboratorial do material cerâmico, lítico e dos solos associado às datações radiocarbônicas e ainda ao levantamento botânico certamente fornecerão novos dados para contar a história da das primeiras ocupações humanas em Porto Trombetas.

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